silêncio selvagem
chicotinho de palavras
dói tanto
que amarga
a boca de quem ouviu
............................ouviu ouviu
..........ouviu
.........................ouviu ......ouviu
ou
viu
e não disse nada.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
A Mudez da Palavra
Postado por Priscila Lopes às 07:37 6 espinhos
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
DE LÁ PRA CÁ
No início
já havia tudo.
Mas Deus era cego
e, perante tanto tudo,
o que ele viu foi o Nada.
Deus tocou a água
e acreditou ter criado o oceano.
Tocou o chão
e pensou que a terra nascia sob os seus pés.
E quando a si mesmo se tocou
ele se achou o centro do Universo.
E se julgou divino.
Estava criado o Homem.
.
.
Postado por Priscila Lopes às 08:00 10 espinhos
domingo, 26 de outubro de 2008
Meninice
Como se fosse a primeira vez
Ela lambeu a ponta do lápis – mania que tinha
Riscou os olhos – traço curto e grosso
Como se fosse a primeira vez
Ela a olhou e disse:
“você não quer se riscar também?”
Como se fosse a primeira vez
As duas gerações descobriam-se
Pelo rastro dos riscos nos olhos.
Postado por Aline Gallina às 10:28 3 espinhos
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
"Hoje em dia..."
.
Sentia falta do tempo
em que as poesias (se) exaltavam:
- Oh céus, oh Cristo!
E por isso não lia mais
poemas, não aparecia
nos lançamentos, nas livrarias,
saraus ou sebos.
- Oh céus, mas que merda!
.
Postado por Priscila Lopes às 15:14 9 espinhos
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
terça-feira, 14 de outubro de 2008
GARIMPO LITERÁRIO
se eu me precipitasse
em um precipício
e esse fosse a princípio
uma boca que falasse
e essa decidisse
pôr fim à queda e à sua falácia
e predissesse
qual um vate que musas invocasse
meu destino
e o mais que me coubesse
eu principiaria a rir
como se risse fosse
o passe de mágica
que transfigurasse
o que parecia inevitavelmente trágico
na mais despretensiosa tolice
.
.
Postado por Priscila Lopes às 16:14 3 espinhos
M'água
Escrevo à luz da palavra que me consome:
rendo-me tão-somente às idéias
- dois ou três copos d’água –
nem sinto fome.
Vai dizer que viver
não é feito de mágica?
Mas, agora, racionamento de água:
falta-me inspir-ação, ânimo, páginas.
O solo resseca, o corpo sossega,
e a mente traja
luto.
Postado por Priscila Lopes às 07:26 8 espinhos
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
COMO DIRIA MANUEL BANDEIRA...
Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunham:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora sua falta.
Sei bem que ela virá
(pela força persuasiva do tempo)
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra.
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue,
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.
Mas agora não sinto a sua falta
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)
Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.
Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Postado por Priscila Lopes às 14:44 1 espinhos
terça-feira, 23 de setembro de 2008
GARIMPO LITERÁRIO
a Cláudio Oliveira
No princípio eram as letras
Desarrumadas Quando nem alfabeto
havia De sentido
apenas a própria matéria
letral Os arranjos faziam-se
Por entre xsc vhal deim
deu no que deu: num verbo
Depois noutro e noutros A partir daí
tudo ficou mais fácil
As letras aprenderam a movimentar-se
De seus encontros nasceram
coisas como mar dobradiçasdo-
asfalto homens sol
roldanas-do-engano chaves-de-fenda
(estas últimas serviam
pra desmontar os encaixes
- com elas é que se descobriu
que dentro de todas as coisas
são letras que existem) Tempo virá
em que os arranjos voltarão a lembrar
estas sintaxes E traçarão outras
Estrangeiras
Começando sempre por onde nunca
se sabe
Postado por Priscila Lopes às 15:42 0 espinhos
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Postado por Priscila Lopes às 14:06 4 espinhos
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
ela lê o beabá do levedo
e lambe o dedo que leva o lápis:
aí vem o olho esquerdo a ver ao lado
o louvor da letra que se faz no copo
a loucura bêbada que se faz num chopp
-----------------------------------ou
---------------------------------cerveja
Postado por Aline Gallina às 13:57 5 espinhos
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
COMO DIRIA AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA...
Não basta um grande amor
.....................para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
.....................que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
Uma coisa é a letra,
e outra o ato,
.....................- quem toma uma por outra
............................confunde e mente.
Postado por Priscila Lopes às 16:22 1 espinhos
domingo, 24 de agosto de 2008
L'homenaje
A party de agora
é fiesta!
A palavra está solta
do papel ao céu da boca
- Oh, este muy bello ciel!
Quiero comer New York,
los muffins de New York,
los seios de la statue de New York
- commettere un scandale public!
E assim amarrar minha bandeira
em todas as línguas.
Postado por Priscila Lopes às 09:00 7 espinhos
terça-feira, 19 de agosto de 2008
GARIMPO SEMANAL
COISA
Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me comove.
Lembro-me que viver ou morrer são classificações como animais ou vegetais que tenham seu normal ou mais freqüente meio de vida. Apenas faço parte das coisas.
Aceito as dificuldades da vida porque fazem parte do destino – e acredito que sem elas não haveria propósito.
Se me queixo?
Sim, me queixo como quem meramente aceita, e encontra uma alegria no fato de aceitar.É difícil tanto quanto sublime aceitar o natural inevitável.
Sei que o mundo existe, só não sei se eu existo.
Estou mais certa da existência da minha casa na praia do que a existência da dona da casa na praia.
Só sei que a vida passa e não estamos com nossas mãos enlaçadas.
Tudo que existe simplesmente existe, é uma velhice que nos acompanha desde a infância.
A realidade não é uma idéia minha, a minha idéia de realidade é que é uma idéia minha.
Por que será que Deus quis que não o conhecêssemos?
Eu não sou filosófica: tenho sentidos...
Se falo de coisa não é porque sei o que é coisa, mas porque a amo, e amo por isso. Porque quem ama nunca sabe o que ama, nem por que ama, nem o que é amar. Amar é a eterna inocência.
E, ao lerem meus textos – pensem que sou qualquer coisa.
Disponível em: http://biancafeijo.blogspot.com/
Postado por Priscila Lopes às 09:00 3 espinhos
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
COMO DIRIA MILLOR FERNANDES...
Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se,
Um dia,
Doidamente,
Por uma Incógnita.
Olhou-a com o seu olhar inumerável…
E viu-a, do Ápice à Base.
Uma figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No infinito.
“Quem és tu?” indagou ele
Com ânsia radical.
“Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode chamar-me de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs –
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação;
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim! resolveram casar-se.
Construíram um lar.
Mais do que um lar,
Uma perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro,
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos
E foram felizes
Até àquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a relatividade
E tudo o que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade.
Postado por Priscila Lopes às 09:00 1 espinhos
terça-feira, 12 de agosto de 2008
domingo, 27 de julho de 2008
Inconfessáveis
Se escrevo é porque não suporto em mim
essa palavra ardente. E porque sufoca-me
o ar dessa enciclopédia aguda, a altura
do penhasco com o qual me defronto
quando penso em saltar - é sempre mais
alto, e maior o risco do tombo. Eu lhe escrevo
e ponto. Mas explico porque me inundam
as lágrimas que castigas ao receber notícias
minhas. Já houve um tempo em que havia tempo
e a gente só ria. Já houve riso, sentido, olhares
que se cruzavam atônitos antes de outro riso
e sentido. Olhares. Houve. E agora não enxergo
motivo para não lhe escrever sobre o vazio
que habita os cômodos - incomoda. É um tapa
o gesto que procuras ao me sentir chegando.
Eu sei que é Janis Joplin a sua dor, e descubro:
O número 2 é infinito. Multiplica-se e se subtrai;
nada harmonioso; inconfessável. Foram os hormônios
da época, eu a perdôo! Eu a perdoarei a cada
sorriso que essa criança esboçar
imitando o seu nome.
imitando o seu nome.
Postado por Priscila Lopes às 15:38 4 espinhos
sexta-feira, 11 de julho de 2008
GARIMPO SEMANAL
O dia é um rio. E nele
bebo as estrelas do céu
e recrio
nos remansos de cobras
os bambuzais.
Ao léu, penso ovelhas,
penso folhas que não caem,
carícias de vento nos coqueirais
— a vida que se disfarça.
Do trem que não passou,
penso a fumaça.
Disponível em:
http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet251.htm
Postado por Priscila Lopes às 16:55 4 espinhos
quarta-feira, 18 de junho de 2008
sábado, 24 de maio de 2008
COMO DIRIA HILDA HILST...
Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.
Postado por Aline Gallina às 17:31 5 espinhos
sábado, 17 de maio de 2008
Clarispectorando
um
silêncio
de
dar
dó
( )
in-
cêndio
no
des... viu?
( )
antigamente eu era eu mesma.
Postado por Priscila Lopes às 19:53 8 espinhos
quarta-feira, 14 de maio de 2008
GARIMPO SEMANAL
Inverno
inaugurou hoje
não no calendário,
que lá inda é outono,
mas no ano
no dia
na pele.
Inverno
invadiu o ar
que chora
uma chuva
molhada
chuva de inverno
molha até os papéis
(os que estão
nas gavetas)
Inverno
chove triste
molha a roupa
molha o corpo
molha os ossos
chora o dia
até virar noite
Inverno
encharca
as calçadas,
emboscado
embaixo das lajes,
alagando frieiras,
penetrando por
insuspeitos
buracos no sapato.
Inverno
triste e cinzento
como o dia
como a cidade
como o mofo
das paredes
e da alma
das pessoas
Se o inferno
fosse frio,
seria inverno
Postado por Priscila Lopes às 16:27 7 espinhos
quinta-feira, 1 de maio de 2008
quarta-feira, 16 de abril de 2008
and the oscar goes to...
Eu vou escrever um discurso para o bem
de todos. Vou celebrar toda uma Nação,
e Estados miniaturas da África,
da Europa e da Ásia - vou disseminar o vírus poético-
caótico no Azerbaijão. Em francês, une chanson triste
para os corações empedrados - leite em pó violado:
os ratos esperam seus restos – Oh, Imortais
da Literatura, eis mais um prêmio - o derradeiro,
o sentenciador - o mais perfeito é deixado para o final:
a Morte!
Postado por Priscila Lopes às 14:50 13 espinhos
terça-feira, 8 de abril de 2008
COMO DIRIA ANA CRISTINA CESAR...
discurso fluente como ato de amor
incompatível com a tirania
do segredo
como visitar o túmulo da pessoa
amada
a literatura como clé, forma cifrada de falar da paixão que não pode
ser nomeada (como numa carta fluente e "objetiva").
a chave, a origem da literatura
o "inconfessável" toma forma, deseja tomar forma, vira forma
mas acontece que este é também o meu sintoma, "não conseguir falar" =
não ter posição marcada, idéias, opiniões, fala desvairada.
Só de não-ditos ou de delicadezas se faz minha conversa, e para
não ficar louca e inteiramente solta neste pântano, marco para
mim o limite da paixão, e me tensiono na beira: tenho de meu
(discurso) este resíduo.
Não tenho idéias, só o contorno de uma sintaxe ( = ritmo).
Postado por Priscila Lopes às 15:23 6 espinhos
quinta-feira, 3 de abril de 2008
GARIMPO SEMANAL
A chuva já recomeça:
e o sol ainda resta em frestas
(como o significado da palavra solidão).
O tempo mente o relógio.
Quanto tempo leva?
(uma tristeza para se libertar)
O tic-tac sem pressa...
Uma beleza leva quanto?
(Tempo para germinar)
Quem vai responder,
mesmo que se engane,
saberá que o engano às vezes é bom.
Por dentro
o tempo não pára enquanto
a minha roupa quara,
da janela pra dentro é
o mesmo (tempo.)
Temporal.
Postado por Priscila Lopes às 16:16 6 espinhos
sábado, 29 de março de 2008
Discussão
Falácias
Faces de palavras
......F...A...L...É
......................S
.........................I
...........................AS
..............................onde o corpo não é
lugar algum
Prata preta no lixo
da boca
Dá o que falar
(muita porcaria!)
em meio
ao cenário branco.
Postado por Aline Gallina às 12:35 8 espinhos
terça-feira, 25 de março de 2008
Aqui
De onde me encontro
- e me perco onde? -
posso ver as fagulhas,
as falácias, a facilidade
com que trabalhas a verborragia
quase inútil - operário das palavras;
examina
dor
dos
dicionários.
O teu trabalho árduo,
o teu canto girassol
é tão emblemático,
tão ensimesmado,
que reluz utópico
diante do anonimato.
De onde me encontro
- e não me procuro -
posso rir, e não me ouves;
posso escrever, e não me lês.
Sou um poeta.
Postado por Priscila Lopes às 13:05 6 espinhos
terça-feira, 18 de março de 2008
COMO DIRIA GLAUCO MATTOSO...
A crítica que tenho recebido
é quanto ao tema, não quanto ao formato:
"O Glauco trata só de pé e sapato,
ainda que use o molde mais subido."
Respondo antes de tudo por Cupido:
comigo ele jamais teve contato.
Além do mais, não vou deixar barato
que assunto algum me seja proibido.
Sou cego mas eclético, e versejo
acerca de problemas tão diversos
que nem forró, barroco e sertanejo.
De grandes e pequenos universos
é feito o Pé que cheiro, beijo e vejo:
a Ele presto conta dos meus versos.
Postado por Priscila Lopes às 12:02 8 espinhos
sexta-feira, 14 de março de 2008
E fica por isso
Preguiça de enviar palavras
- sussurros - na minha mente.
[Estou sem concentração.
Ou com, não sei...]
A gravidade pesa!
[E como]
Maltrata o corpo, dentro dele
[Machuca por dentro, sabe?]
-..........................................................olhos na parede,
os desvio com dificuldade e um pouco de raiva.........-
.........................................................................................
Os olhos me fecham
- sinto uma dor –
é uma palavra que não vem
mais . nada.
Postado por Aline Gallina às 20:24 5 espinhos
quarta-feira, 12 de março de 2008
sexta-feira, 7 de março de 2008
verborragia crônica
a inoperância do verbo
ser
dilata-se à freqüência com que
a língua trabalha
a língua, que mastiga o verbo
e dilacera e dilacera e dilacera
feito máquina, feito
indústria pornográfica, feito
merchandising: efeito.
Há por dentro uma língua toda máquina
uma linguagem toda verbo
e um machado cujo prego
preenche os buracos
da tua escrita emoldurada
(um machado de aço para-
fuso de giz)
a dita-dura da língua-verbo
(a dita cuja é só verbo-língua)
projeta um futuro quase passado
um pretérito mais-que-imperfeito
repleto de
oh,
hei,
ais!
Permeia o cético de tão divina língua-verbo
rejeita a faceta do concreto
a língua-verbo que é só língua só
não se atém à semiótica
sempre semi-nua
semi-atleta
semi-até-analfabeta
a língua-verbo
não lê, não
escreve, só saliva
diante do prato que não pode comer.
(está de dieta)
Postado por Priscila Lopes às 12:12 10 espinhos
quarta-feira, 5 de março de 2008
PereguinAÇÃO
..............Só há fama na cama da moça,
que escreve rápido nos teclados
s.l.ç.n.o nostalgia.
.o.u.a.d
.........................................................................
.......................................- Na cama dela também há pecados,
..............................................mas isso não tem nada a ver -
.........................................................................
Ela jura pela letra de Ana:
..............Irá dissolver-se em toda a água
............................................o..m
.........................................d.........u
..........................................o.......n
..............................................d
..............Jura também por Caio e Paulo.
....................................................................
........................Conta cheia de pose:
....................“Pessoas de todas as partes:
Postado por Aline Gallina às 13:02 4 espinhos
segunda-feira, 3 de março de 2008
COMO DIRIA MÁRIO FAUSTINO...
Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias.
Vida toda linguagem –
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, contra a chuva,
tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.
Postado por Priscila Lopes às 13:31 1 espinhos
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
com penetração
.
Vou escrever um poema
de camisola
e penetrá-lo, penetrá-lo, penetrá-lo
de camisinha.
Postado por Priscila Lopes às 11:22 12 espinhos
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Com e sem os pingos
Os pingos nos “is” não vou pôr
e dispor em desacento ordenado.
Acima de cada palavra um pensamento.
Formação de continui-frase-dade em segmento
incomoda se no fim a distância aumenta
se palavra (en)curta a frase (a)tormenta.
Reconstitui o tudo por um novo
e as mãos suplicam reboco
do princípio a fuga não existe
é o começo indubitável
pintável
triste.
Feliz
no fim do agora é futuro.
Reescreve em partes cada etapa no escuro,
reflexões que cheias de “is” aparecem -
abaixo a importância dos pingos -
e deixo você pô-los dessa vez.
Construir frases simples e retas -
nada de listras ou xadrez -
Tudo mostrado nos mínimos, com mimos,
manual de explicações, setas,
Não deixar ninguém pensar...
E os pingos nos céus eu vou pôr,
para chover até que tudo acabe!
Pois de que me adianta viver assim?
Sem entusiasmo, com tanto detalhe?
Está jogado na face!
Tiraram a minha contemporaneidade – achei que ela não tinha fim.
Postado por Aline Gallina às 15:23 6 espinhos
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
COMO DIRIA DORA FERREIRA DA SILVA...
Não me destruas, Poema,
enquanto ergo a estrutura do teu corpo
e as lápides do mundo morto.
Não me lapidem, pedras,
se entro na tumba do passado
ou na palavra-larva.
Não caia sobre mim, que te ergo,
ferindo cordas duras,
pedindo o não-perdido
do que se foi. E tento conformar-te
à forma do buscado.
Não me tentes, Palavra,
além do que serás
num horizonte de Vésperas.
Postado por Priscila Lopes às 12:56 2 espinhos
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Que droga!
Escrevia um concretismo tal
que soou subjetivo. "Cadê o sujeito? Cadê
a essência além da forma? Perfeito:
agora eu uso palavras diversas
para escrever uma só". Não entendia, não
prestava atenção ao poema. Tanto dizia
ele, perdeu o sentido naquela folha perdido,
amarelo doente de pó.
Postado por Priscila Lopes às 13:39 8 espinhos
domingo, 10 de fevereiro de 2008
GARIMPO SEMANAL

Postado por Priscila Lopes às 16:48 8 espinhos
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Engula
..........................................................Letra mais
.............................................letras chegam
............................................mar à tona
...................................de boas vindas
.........................Amontoam-se na boca
........................salivando entre os dentes
.................................engolindo as palavras
........................................GORDOS GOLES:
...........................................blog blog blog blog
.............................................................e mas-
...............................................tigo mastigo
como
(não há mar)
a língua que eu amo?
(não há mar)
as letras que eu amo?
(não há mar)
entretanto
................afogam
............................se...
..................................no seco da garganta
.....................................................descem
.....................................................seus
.....................................................hífens
.....................................................tal
.....................................................vez
.....................................................também
.....................................................os
.....................................................pontos
.....................................................e
.....................................................vír
.....................................................gulas.
Postado por Aline Gallina às 16:34 12 espinhos
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Sensação travestida
Hoje nasceu um homem bom
de barbas brancas e chapéu.
Quando feto, era quase invisível
e cresceu anos à frente do que seria normal.
Nesta tarde ele deve ter posto ao seu redor o direito
de levar os olhos às letras de sua mãe
e escolher a melhor posição
para passar algumas boas horas escrevendo.
Postado por Aline Gallina às 16:38 4 espinhos
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
PPS - Pequena Poética Saudosista
Posso esquecer-me de amigos e parentes
- hei de esquecer o nome do João da padaria,
da tia Idalina, do seu Francisco - e tanta gente
se anuncia à minha frente, eu vou sozinha?
Não. Vêm todos os Andrades – e na Rua dos Andradas vamos
encontrar o velho Quintana. Porque outro dia me disseram
que eu estou adiantada – à frente do meu tempo me observam:
Eu cheguei muito atrasada.
Postado por Priscila Lopes às 11:58 4 espinhos
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
A dança da tansa
Olha a lambança que a tansa fez!
Deixou que lhe servissem de dedos
os anéis que sumiram.
Veja a dança que a coitada tem!
É de quebrar meu pescoço de ré
que lhe é bem-vindo.
Mas por que a moça desengonçada
insiste em brincar com a tinta no
papel pautado?
Seu construir é um tanto ousado
Para quem nem sabe o que é pintar.
Postado por Aline Gallina às 12:54 5 espinhos
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
GARIMPO SEMANAL
O líqüido negro e quente
invadindo a lingua às iminências
Suga da epiderme terminal de mais um dia
o esqueleto arquitetado das idéias esvaídas
do expirar aeróbico de cada sofisma
Morada erguida pelas mãos de mais um negro
Em nosso ser o cacifo do infinito
O café, enfim, nos traz à tona
e a caneta reticencia seu esmo.
Postado por Priscila Lopes às 13:14 5 espinhos
sábado, 19 de janeiro de 2008
Degustação
Eu comecei a ter medo da escrita.
Parece que cada palavra
me engole
sem mastigar.
- Vomita, vomita!
Outro dia, eu estava passando
por um livro do Vinicius
e ouvi: "Que moça bonita!"
Eu sou maluca.
Postado por Priscila Lopes às 09:41 14 espinhos
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
COMO DIRIA CECÍLIA MEIRELES
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E sei que um dia estarei mudo:
- mais nada
Postado por Priscila Lopes às 15:21 7 espinhos
sábado, 12 de janeiro de 2008
Que maldade
Horrível!
Um horror irreversível que mata meus olhos
Torna a cegueira desejavelmente perdoável
- eu que não vi o que ocorreu -
senti na pupila todo o asco
que tua repugnante letra
me contou
às zero horas
do dia tal.
Postado por Aline Gallina às 23:07 4 espinhos
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Fonética
Possuía um tranqüilo sotaque
caipira.
Com a ponta da língua erguida e
levemente voltada para trás,
ela a apontava em direção
ao palato duro.
Isso mesmo: a sub-lâmina
da língua molhada
indicando o palato duro.
Possuía um arrojado som retro-
flexo.
- Ah... inocente fonética!
Postado por Priscila Lopes às 13:08 3 espinhos
sábado, 5 de janeiro de 2008
GARIMPO SEMANAL
Rimar faz mal,
coitado do poeta,
que por qualquer razão,
quer ligar, rimar, juntar.
Prefiro versos soltos,
pequenos e grandes,
cheios de gentes,
cantantes, falantes, antes.
Porra! O que eu faço?
versos e rimas,
narro fatos.
Reflito o momento,
comento, assuntos assim,
não vejo essência,
em fazer versos pra mim.
Postado por Priscila Lopes às 08:18 10 espinhos
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
COMO DIRIA PAULO LEMINSKI...
Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.
Postado por Priscila Lopes às 20:57 13 espinhos